sexta-feira, 11 de abril de 2008

"nunca aceites menos.."

Foi a única mulher naquela redacção de quem eu gostei verdadeiramente e de quem poderia ter sido muito amiga, mesmo no mundo real como eu gostava de dizer, ou seja, lá fora, num contexto diferente.
Tinha muitas irmãs e falou-me de cada uma pormenorizadamente. Era uma mulher quarentona, charmosa e com um "jogo de cintura" que impressionava.Rainha absoluta entre homens. Fazia de conta que não entendia algumas bocas mais maliciosas da secção masculina ou alguns "recados" do editor para depois, mais tarde, desabafar comigo "ai ,este homem, que feitio de cão". De dedo em riste, depois de muito apregoar, dizia em modos de conselho: "Enfim, não te esqueças, se conseguires trabalhar com ele, trabalhas com qualquer pessoa". Certíssimo. Ainda hoje me lembro "dele", quando me aparece à frente alguém mais complicado e...quem vier..morre!
Recordo-me dos passos dela quando chegava, a forma como despia o casaco e o colocava nas costas da cadeira, a maneira displicente (mas não vaidosa) como cumprimentava o pessoal e a forma como eles a olhavam. Era óbvio que a presença dela agradava.
Por vezes, em certos finais de tarde, ela "brincava" um bocadinho com o pessoal, ou seja, dava um bocadinho de corda, entrava na conversa, gracejava, criava um bom ambiente e, depois, de forma subtil, com muita classe, informava que estava na hora de ir embora e..eles "morriam" na praia....
Levantava-se, vestia o casaco e piscava-me o olho disfarçadamente.
Eu ficava boquiaberta, olhava para ela como se fosse uma diva (para mim era, sem dúvida)porque a forma como ela transformava aqueles tubarões (os homens mais velhos) em pombinhos ...era uma façanha que escapava ao meu entendimento, na altura..
Foi ela que protagonizou um dos momentos mais marcantes, com uma carga de tal forma erótica que, se não fosse a banalidade do local e das circunstâncias, eu diria que ela era uma femme fatale.
Ela estava a terminar o texto, sentada muito direita, a escrever com os braços muito juntos, sem perder a postura. Nesse final de tarde, vésperas de Natal, eu estava sentada no lugar do rapaz de olhos verdes, que não se encontrava- "ele não vem sempre, pode usar esse lugar quando ele não estiver" -tinham-me dito à chegada.
Procurou-me com o olhar, sorriu-me e perguntou-me o de costume: "Filhota, vais voltar com outra cor no cabelo, não vais?" e depois, em voz alta: "Terminei, vou-me embora. Vou dar-vos um beijinho..."
E pronto, foi aí. Eu sei que foi esse o momento em que algo mudou. Era palpável a transformação. Aqueles homens de língua afiada e resposta mordaz ficaram alterados. Algo parou naquele momento, naquele local. E logo a voz dela a proferir a frase fatal:
-Mas nada de mãozinhas...
E eles de olhos a brilhar, muito quietos, expectantes, lembravam crianças à espera de um doce que só se recebe em ocasiões especiais. Receberam os dois beijos "de bom Natal"que ela lhes depositou na face como se fosse algo "muito especial"...
Ela era especial...
Um dia perguntou-me ao ouvido: "Sabes para que servem os homens?".
-Sexo?!!, perguntei com ar irónico.
Riu-se.
-Isso é muito pouco..os homens servem para nos fazer felizes. Nunca aceites menos do que isso..
Querida "miss rivers":
Eu nunca aceito menos, nunca.

15 comentários:

Bartolomeu disse...

... dificilmente aprendemos com quem nos quer ensinar... aprendemos bastante mais com aqueles com quem desejamos aprender...
;)

Bartolomeu disse...

ah!... esqueci-me de refrir... belíssima escrita!
;)

QJ disse...

é muito bom ter assim um(a) colega de trabalho que a sua presença marque quem circula por lá.

beijos provocantes

Anónimo disse...

A Alice Rios era mesmo assim... Ate eu sinto saudades dela.

muito querida disse...

querido anónimo,
não sei se os "velhos do restelo" não virão cá mandar vir comigo por publicar o teu comentário com o nome da pessoa em questão..

mas por mim fica, ela merece.

Anónimo disse...

Por falar em velhos do Restelo, publicar um nome num post deste teor não tem mal nenhum. Não é o mesmo que envolver pessoas que nem lá andavam naquela altura em delírios lúbricos que não lhes dizem respeito e que os podem prejudicar directamente...

lalisca.cs-life disse...

Para mim...nunca menos!!
Há mulheres assim...
beijo

luafeiticeira disse...

Aí está uma boa resposta, essa não conhecia, mas já registei.
Novo post te aguarda
beijos

Doce Veneno disse...

Existem de facto pessoas que passam na nossa vida e nos deixam a sua marca.

Nunca aceites menos do que isso... é um óptimo conselho.

Temos, não só o direito, mas sim a obrigação de sermos felizes.

Beijos Quentes :D

Shelyak disse...

Olá minha "querida"...
Sabes uma coisa engraçada: não me irei esquecer do que aqui relatas tão cedo ou mesmo nunca mais...
Mulheres assim não existem muitas, não...
Gostei mesmo !
E hoje, o que é feito dela?
Beijinhooooooooo

Quando o Fogo e o Gelo se encontram disse...

auto estima em cima :)
bjs

pipokas disse...

Para o anónimo que também tem saudades minhas, aqui estou eu, cinquentona, com as irmãs todas e muito, muito surprendida com a ousadia da "muito querida".
Tenham paciência, mas estou na descida da rampa térmica da vida e o mais que vos deixo são palavras tépidas.

muito querida disse...

Alice, és mesmo tu?

Muitos beijinhos para ti

nunca te esquecerei

:)

Anónimo disse...

... Eu mesma! Inteirinha...

JN ficou para trás, lá pelo 2003.

Do que sinto, mesmo, saudades é daquele tempo em que tinhamos tempo de aquecer os motores, pela manhã, partilhando uma mesa de café, no Largo de Tito Fontes, com aqueles dois reporteres fotofráficos mais que queridos - amigos, pais, irmãos... Eles eram tudo...
E das sangrias da Cunha, que nos faziam tropeçar em nós mesmas. Ainda haverá companheiros assim? Momentos como aqueles é que não.
Muito querida, corre a cortina.

Anónimo disse...

... Eu mesma! Inteirinha...

JN ficou para trás, lá pelo 2003.

Do que sinto, mesmo, saudades é daquele tempo em que tinhamos tempo de aquecer os motores, pela manhã, partilhando uma mesa de café, no Largo de Tito Fontes, com aqueles dois reporteres fotofráficos mais que queridos - amigos, pais, irmãos... Eles eram tudo...
E das sangrias da Cunha, que nos faziam tropeçar em nós mesmas. Ainda haverá companheiros assim? Momentos como aqueles é que não.
Muito querida, corre a cortina.